sábado, 17 de abril de 2010

Social Metropolis + Mídias Sociais = Democratização?

Depois de um longo tempo de abstinência desse pobre depósito, voltei para tentar trazer um suspiro de vida de volta para esse espaço cibernético. Vamos lá!

Lendo um livro que um colega de faculdade me indicou me deparei com uma afirmação que me incomodou. Dizia o livro: Social media can be defined as the democratization of information. Mas será mesmo que podemos falar de forma tão dogmática que as chamada mídias sociais são o que ele (como diria professor Delfim:) quase poéticamente chama de democratização da informação?

O livro em questão chama-se The Social Metropolis, de Jimmy Maymann (disponível em inglês aqui). Maymann busca explicar como funciona o chamado marketing viral. Nesse post do blog Conector, em que o publicitário Gustavo Mini explana sobre o livro e sobre o próprio marketing viral, vale destacar um trecho:

A Social Metropolis é a cidade que nunca dorme por excelência, um local cujos cidadãos, ruas, prédios e organização hierárquica estão em constante transformação, sem referências que durem muito tempo. Esse ambiente absolutamente fluído é o campo no qual os conteúdos (de marca ou pessoais) são semeados constantemente. Alguns permanecem semente ou plantinha pra sempre. Outros brotam, crescem e se viralizam de acordo com regras dinâmicas que (não acredite se lhe disserem o contrário) ninguém domina muito bem.

Entender o marketing viral é saber como funciona a tal Social Metropolis. Para Maymann as "social media" são a "social glue" de toda essa confusão. É preciso que haja uma interação social entre os indivíduos para que essa interação se constitua. Como uma citação do próprio livro diz, quando se manda um e-mail entende-se como um presente ao destinatário mas, na verdade, essa é uma desculpa para que se crie um interação a partir dalí. Se o e-mail for suficientemente interessante, isso significa que que a ocorrência é válida para desencadear uma resposta.

No entanto, a parte complicada disso tudo não é o entendimento dessa cola social ou da social metropolis (pelo menos, não a mais complicada delas). Pensar em uma social metropolis e afirmar que que mídias sociais são uma forma de democratização da informação buscam uma premissa fundamental: o sujeito está incluído nessa confusão, ele é um cidadão digital, ele tem seu avatar cibernético. Mas em muitos casos isso não acontece.

Segundo José Sasportes, presidente da comissão nacional da UNESCO, apenas 5% da população mundial tem acesso à internet. Num olhar para a Europa, esse dado é uma aberração, o continente conta com mais de 50% de penetração da internet em sua população. No entanto, para países como os vário africanos, certamente esses dados são bem reais, ou quem sabe até mesmo superiores à realidade desses países.

Falar em um poder extraordinário da internet e do marketing viral em países com taxas de acesso à internet certamente não faz muito sentido. Sob esse mesmo olhar, pode-se trazer à tona o fato de que, sem acesso à internet, falar em mídias sociais como democratizadores do acesso a informação não tem absolutamente nenhum sentido real.

Falar em social media com todo esse entusiasmo parece que voltamos às discussões sobre a prensa gráfica de Guttemberg. Ao mesmo tempo que, sim, a prensa de Guttemberg revolucionou a forma como a armazenagem e a distribuição de informação, países majoritáriamente analfabetos não foram atingidos por essa grande revolução. A Rússia da época de Guttemberg não sofreu absolutamente nenhuma mudança. Algum tempo depois da criação da prensa gráfica, o governo russo manteve algumas poucas prensas (algo em torno de duas ou três) por motivos administrativos.

Mais tarde a prensa seria fortemente utilizada chegando a criar o que hoje confusamente se conceitua como a esfera pública de Habermas e dos amigos Briggs e Burke. Jornais, panfletagem e a própria distribuição de livros impressos se tornou forte. Aos poucos isso criara uma cultura letrada na Europa. Somente depois que essa cultura letrada começou a penetrar no país-continente Rússia que a prensa se difunde pelo país.

Falar em mídias sociais aqui parece se tratar de algo semelhante: apenas uma faixa muito estreita da população mundial tem acesso a ela e, no entanto, não se cansa de tratá-la como uma grande revolução, mesmo que ainda não tenha todo esse poder de penetração na população.

Certamente essa revolução com nada se compara à revolução na Grécia do surgimento da escrita a não ser pela forma como ela se deu: definitiva (talvez) e gradual. Mas se é, de fato, tão gradual, é revolução?

Encontrar uma palavra para definir o que parece ser essa coisa que chamam de "revolução" é, certamente das coisas mais difíceis, no entanto não podemos deixar de trazer à toda essa confusão o pensamento de como e se essa coisa é assim tão abrangente. Democratização, seja do que for, é uma coisa extremamente relativa. Se, para quem tem acesso isso, é de fato democrático não há dúvida. Mas se não é acessível a todos é de fato democrático?

4 comentários:

EduardoGimenes on 19 de abril de 2010 20:14 disse...

Eu acredito que o que a internet e as mídias sociais tem como vantagem sobre as outras mídias é a possibilidade de comentar, discutir, opinar e distribuir aquilo que está sendo apresentado, O que não ocorre com a TV por exemplo. Isso nos abre um precedente para não termos que "engolir" coisas que muitas vezes não concordamos sem poder nos manifestar.

É claro que o fato de haver ainda uma pequena parcela da população com o privilégio de participar dessa "comunidade" é prejudicial ma tb é notório que a tendência é que ela diminua e isso vai promover grandes melhorias para a humanidade (pelo menos eu espero).

O potencial de mobilização que está nascendo com as midias socias poderá ser usado para manifestações para a cura do planeta que está doente por exemplo.

Isso tudo mostra que sim, as mídias socias = democratização da informação no seu círculo que deve ser expandido.

Eduardo Gimenes

Augusto. on 20 de abril de 2010 17:28 disse...

A grande questão é que essas mídias, sim, de fato são um meio de democratização, mas essa tecnologia não é acessível.

Meu intúito com esse post não era necessariamente afirmar que sim ou não. Na verdade eu não sei muito bem o que pensar. São 5%, mas quanto em números reais representa isso? E, mesmo que não seja um número exatamente grande, será que as vezes não rola uma parada como as leituras públicas de panfletos na revoluçã francesa? Uma maneira períferica e eficiente de tornar tudo isso público.

EduardoGimenes on 20 de abril de 2010 17:47 disse...

Olá Augusto, de forma alguma estou criticando o seu post, alias, essa é uma questão polêmica e muito interessante de ser abordada.

Meu comentário foi com teor "colaborativo reflectivo"

Um abraço

Augusto. on 20 de abril de 2010 18:46 disse...

É, e eu encarei assim mesmo. Mas é pq eu de fato não sei muito bem o que pensar.

Num momento oportuno chamarei a ajuda dos universitários e, se chegarmos a algo mais conclusivo, posto algo por aqui...

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