Cuidado com a incapacidade da ironia, com o provincianismo mental!
Há mais que um sentido no texto, então no discurso, contido em nenhuma palavra dela ou dele. Pois é impossível o texto do discurso dizer aquilo que diz.
Pensar em fotografia não é pensar na modelo retratada. Estamos falando de uma figura bidimensional, a impressão fotográfica em si. Lembrar que todo sentido de profundidade na fotografia é mera ilusão de nosso cérebro é SEMPRE fundamental.
Para isso, acho interessante introduzir dois conceitos básicos de composição fotográfica, mesmo que superficialmente:
1 - composição geométrica: é, literalmente a maneira como as linhas se organizam na foto (ou numa peça gráfica ou obra de arte qualquer). circulos, quadrados, diagonais, triângulos, caminho de leitura, enfim... geometria. (esse link explica isso de forma interessante)
2 - composição ideológica: essa parte é mais complicada e bem mais profunda. Para brincar de composição ideológica a gente precisa de algumas ferramentas a mais. Mas a questão é: nem sempre ela está presenta (falando do fotógrafo), mas isso não quer dizer que não possa ser atribuída (falando do observador). É a parte do texto da fotografia, o que foi retratado, por que foi retratado, buscar entender se aquilo não é mais que uma foto bonita.
Vamos então ver um pouco disso:
Essa foto é um auto-retrato (de uma série) de John Coplans. Vamos observar algumas coisas:
1 - ele, a partir da posição da câmera e de seu próprio corpo transforma seu tronco em um retângulo e suas mãos aparecem apenas sobre sua cabeça como algo que saísse do próprio corpo.
2 - esse é um tipo específico de fotografia de nu que retrata apenas fragmentos.
3 - mesmo se não soubéssemos que isso é um retrato (a parte do "auto" não importa aqui) de John Coplans, saberíamos facilmente que se trata de um homem.
4 - o trabalho de John Coplans, além de extremamente realista retrata muito o corpo humano como uma fortaleza. E é aqui que começamos a sair da composição formal para a composição ideológica. O trabalho de J.C. não retrata o homem, mas a relação do homem-ser-humano consigo mesmo. Entender o ser humano como uma fortaleza não passa longe daquele nosso típico medo de psicólogos, afinal, eles vêem através dos muros.
Não é descabido, depois de observar que o trabalho dele reflete o homem enquanto fortaleza, pensar em algo, ao ver essa foto, como duas torres e um muro, algo mais literal. Ou qualquer coisa que remeta a idéia de fortaleza.
Mas, além de tudo, esse trabalho me parece extrememamente irônico. Se o homem é uma fortaleza, qual a necessidade de Pink Floyd cantar "Mother, should I build the wall?"?
P.S.: Mais tarde, encontrei uma coisa interessantíssima sobre essa foto. No site do Tate, encontrei uma classificação interessantíssima para essa foto: "society - birth to death - old age". Isso abre um leque para ainda mais interpretações. Seria isso um túmulo? Seria um túmulo uma fotaleza?










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